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Avaliação Neuropsicológica e Suas Contribuições

Psic. Ellen Karine Stormovski Rojas Balderrama (CRP 08/11408)

Todo cliente que busca um profissional neuropsicólogo, traz consigo um vasto campo de possibilidades. Para o profissional, todo cliente traz um novo desafio, uma nova descoberta, o início de uma ampla investigação, a qual chamamos de Avaliação Neuropsicológica.

A Avaliação Neuropsicológica é o estudo das funções cognitivas e emocionais do cliente, onde serão investigados fatores tais como desenvolvimento intelectual, atenção, percepção visual/auditiva/cinestésica, funções motoras, linguagem, memória, desenvolvimento pedagógico, desenvolvimento emocional entre outras.

Através do uso de testes psicológicos/neuropsicológicos, questionários, escalas e entrevistas, o psicólogo, utiliza-se de seu olhar clínico na observação e análise dos comportamentos que surgem durante a avaliação, buscando traçar um perfil do funcionamento cerebral. Em nosso trabalho nos baseamos na abordagem da Análise do Comportamento, buscando dados sobre a história de vida do cliente (ontogênese), do contexto social e comportamentos próprios da espécie humana, a filogênse (Skinner, 2000).

Haase e Colaboradores (2012) advertem que a avaliação neuropsicológica não se reduz somente ao uso dos testes padronizados, e sim ressaltam que é essencial a interpretação e a análise qualitativa  das respostas, autocorreções e erros do avaliando, sob a luz na neurobiologia. Assim os autores destacam que a Avaliação Neuropsicológica deve ser muito mais do que somente a aplicação de testes, e sim necessita maior embasamento teórico na relação estrutura-função.

Dessa forma, o neuropsicólogo necessita adquirir certos conhecimentos e habilidades. Tal profissional precisa de constante aprimoramento, agregando conhecimentos que abrangem o desenvolvimento humano, avaliação psicológica, psicopatologia/ psiquiatria, neuroanatomia/ neurofisiologia/ neuropatologia, farmacologia e funções cognitivas bem como, conforme já citado, um conhecimento clínico consistente.

Geralmente o cliente é encaminhado ao neuropsicólogo por profissionais de saúde que detectam uma alteração comportamental em seu paciente e buscam confirmar se tal alteração é explicada através de uma disfunção neurológica ou se há psicopatologia envolvida ou ainda, se coexistem. É esperado que o neuropsicólogo auxilie na descoberta de tais questões, diferenciando, por exemplo, um paciente que se expressa sem censura em razão de lesão neurológica (ocasionada por tumor cerebral localizado no lobo frontal, por exemplo) ou se o paciente apresenta psicopatologia ou até mesmo pobre repertório de habilidade social.

Lettner (1995) cita como categorias neurodiagnósticas mais comuns: tumores cerebrais, transtornos vasculares, demências, traumatismos cranianos e transtornos da epilepsia. O autor ressalta ainda a importância de se elaborar um bom diagnostico diferencial já que tumores no sistema límbico podem gerar alterações comportamentais similares aos sintomas de esquizofrenia e depressão psicótica.

Assim, é cada vez mais comum que neurologistas e neuropediatras, bem como psiquiatras, encaminhem para o neuropsicólogo os seus pacientes que apresentam significativa alteração comportamental, para que se faça uma cuidadosa avaliação das funções cognitivas e emocionais. Outros profissionais da área da saúde, da educação e da área jurídica, também encaminham seus clientes.

No âmbito da psiquiatria, a avaliação neuropsicológica tem se tornado uma importante aliada na investigação de diagnósticos diferenciais. Muitos estudos buscando a associação entre os transtornos psiquiátricos e as disfunções cognitivas tem aparecido, destacando-se a precursora autora Muriel Deutsch Lezak (1995, p. 322-325). A autora cita diferentes estudos sobre depressão associada ao processamento mental lento e déficit atencional leve, bem como estudos sobre amnésias patológicas e não-patológicas colaborativos à área forense. Na prática, observa-se que a inclusão de análises funcionais dos comportamentos-problema no relatório neuropsicológico são bem recebidas por profissionais da área da psiquiatria.

No contexto pedagógico, a necessidade do profissional ir além e investigar as práticas educativas recebidas na escola e em casa, bem como emprestar conhecimentos da Psicologia Escolar, refinam o olhar do investigador favorecendo um diagnóstico conciso de um aluno com queixa escolar. Por exemplo, a hiperatividade em sala (agitação motora) pode ser um comportamento resultante de um estudante entediado pela facilidade que possui em adquirir os conhecimentos propostos (falta de desafio pedagógico) ou resultante de ansiedade gerada por conflitos vividos pela família, e não necessariamente são determinantes para definir-se um diagnóstico para TDAH (distúrbio neurobiológico), por exemplo. Quando um aluno é encaminhado ao neuropsicólogo, toda uma rede de relações precisa ser investigada, com o objetivo posterior de integrar a rede e potencializar forças entre equipe escolar e pais (Souza, 2007). Tal olhar é importantíssimo ao investigador, para saber diferenciar quais estímulos o aluno vem recebendo de seus contextos educativos, e se a queixa corresponde a uma psicopatologia, a um Distúrbio de Aprendizagem, ou a uma disfunção cognitiva ou ainda se na verdade, a questão não restringe-se ao aluno e sim em ajustes nestes contextos ao qual ele está inserido (escolar e familiar). O estudo sobre Estilos Parentais (Gomide,2004) também oferece significativa contribuição na avaliação neuropsicológica do profissional que segue a abordagem da Análise do Comportamento e trabalha com essa população.

No contexto forense, a avaliação neuropsicológica oferece auxílio aos profissionais da área do direito na tomada de decisão (Camargo, 2012). Segundo Serafim e Saffi (2012), na área civil, por exemplo, uma avaliação neuropsicológica possibilita o auxílio nos processos de interdição de sujeitos com quadro demencial, constatando se o sujeito realmente não possui discernimento pleno para exercer atividades da vida civil, como casar-se, fazer um testamento,  vender ou comprar bens.

Percebe-se assim, que são várias as contribuições que a avaliação neuropsicológica tem a oferecer nos dias de hoje, onde constantes descobertas sobre o cérebro e seu funcionamento surgem. Constitui-se, dessa forma, um estudo fascinante pelos resultados que oferece, e torna-se uma ferramenta necessária ao profissional que busca oferecer ao seu cliente, um trabalho ético e consistente.

Referências

Camargo, C. H. P., Bolognani, S. A. P., Zuccolo, P. F (2008). O exame neuropsicológico e os diferentes contextos de aplicação. In: Fuentes, D., Malloy-Diniz, L. F., Camargo, C.H.P., Cosenza, R.M. (2008). Neuropsicologia: teoria e prática. Porto Alegre: Artmed.

Gomide, P. (2004). Pais presentes, pais ausentes: regras e limites. Petrópolis: Ed. Vozes.

Haase, V.G., Salles, J.F., Miranda, M.C., Malloy-Diniz, L.,Abreu, N., Argolo, N., Mansur, L.L., Parente, M.A.M.P., Fonseca, R.P., Mattos, P., Landeira-Fernandez, J., Caixeta, L.F, Nitrini, R., Caramelli,P., Teixeira-Junio, A. L., Grassi-Oliveira, R., Chistensen, C. H., Brandão, L., Silva-Filho, H.C., Silva, A. G., Bueno, O.F.A. (2012). Neuropsicologia como ciência interdisciplinar: consenso da comunidade brasileira de pesquisadores/clínicos em Neuropsicologia [versão eletrônica]. Revista Neuropsicologia Latinoamericana, 4, 1-8.

Lesak, M. D.(1995). Neuropsychological Assessment. New York: Oxford University Press.

Lettner, H. W. (1995). Neuropsicologia Comportamental in B. Rangé (Org.), Psicoterapia Comportamental e Cognitiva de Transtornos Psiquiátricos, (pp. 221-233). Campinas: Editorial Psy..

Serafim, A.P., Saffi,F. (2012). Psicologia e práticas forenses. Barueri: Manole.

Skinner, B. F (2000). Ciência e Comportamento Humano. São Paulo: Martins Fontes.

Souza, B. P. (Org.).(2007). Orientação a Queixa Escolar. São Paulo: Casa do Psicólogo.

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