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O Filho da Noiva

Psic. Ellen Karine Stormovski Rojas Balderrama (CRP 08/11408)

O filme argentino “O Filho da Noiva” (2002) do diretor Juan José Campanella, vencedor no Oscar de 2002 na categoria de “melhor filme estrangeiro”, conta a história de Rafael, um quarentão divorciado sempre muito ocupado com a administração do restaurante da família com o dia-a-dia corrido, ele acaba não priorizando seu relacionamento com a namorada (Naty) , com a filha (Vicki), e com sua família de origem (sua mãe Norma, portadora da doença de Alzheimer e seu pai Nino). Na trama, surge um amigo de infância, Juan Carlos, que durante o filme, ajuda Rafael a perceber o valor de sua família e de sua namorada.

No filme, Rafael visita exporadicamente a mãe no asilo em que vive. Tal afastamento se deve a prioridade que Rafael dá aos negócios, mas também por um conflito mal resolvido entre ele e a mãe – que nunca aceitou bem de que Rafael tivesse abandonado o curso de Direito. Por insistência do pai, Rafael faz uma visita a ela no dia do aniversário de Norma. Eles a levam a um restaurante, e Rafael chama a garçonete de “linda”, sendo caçoado pela mãe na frente de todos. Após essa visita, em um encontro somente com o pai, Rafael não consegue ser muito empático com Nino quando este decide casar na igreja com Norma, mesmo com sua esposa adoecida. O pai de Rafael, com essa decisão, queria realizar o antigo sonho da esposa (casar na igreja), considerando que foi a única coisa que ele não deu a ela durante a união. Porém, Nino foi desencorajado pelo filho pois acredita que a mãe nem perceberá tal situação por causa do diagnóstico de Alzheimer.

Uma noite, Rafael sofre um enfarto em casa e é levado as pressas ao hospital. Após um período de internamento, onde recebe a visita do amigo de infância Juan Carlos, recebe alta do hospital. Após esse enfarto, Rafael conta ao pai de que já não consegue mais administrar o restaurante da família pela tarefa ser muito estressante e tem a intensão de vender o estabelecimento. Durante um encontro com Rafael e Naty, Nino consente a venda do restaurante e relembra o passado, contando detalhes de quando somente ele e a esposa cuidavam do estabelecimento, mostrando toda sua admiração pela esposa. Nesse momento do filme, é percebida a paixão ainda viva de Nino por Norma.

Tal paixão inspira Naty, que após ter presenciado a conversa entre pai e filho, tenta convencer Rafael a ajudar seu pai a casar-se. Por fim, após uma longa conversa com Juan Carlos (amigo de infância que cultiva muito apreço por Norma,), Rafael aceita ajudar o pai a realizar o casamento. No asilo, quando Nino faz o pedido a Norma, Rafael e Vicki (neta de Nino) estão presentes. Norma não reconhece a neta e demonstra pensamento perseverante sobre sujeira. A neta é apresentada 2 vezes a avó que esquece repetidamente seu nome. Posteriormente, Nino faz o pedido a esposa, que demonstra certa dificuldade de compreensão, mas por fim parece compreender e aceita.

Os preparativos para o casamento começam a ser feitos, porém quando o padre fica a par sobre a condição médica da noiva, ele reluta dizendo de que consultará o direito canônico para ver a possibilidade de se fazer o casamento na igreja.

Enquanto isso, o relacionamento entre Rafael e Nathy entra em crise. Um dia Naty, conversa francamente sobre seus sentimentos e rompe com Rafael, declarando seu desejo de se apaixonar e ser correspondida, como o pai de Rafael é apaixonado por Norma, mesmo com todos os problemas que ocorrem. Ela expõe o quanto está insatisfeita e há o rompimento.

Posteriormente, Rafael vai falar com o padre e recebe a notícia de que pelas regras da igreja, não poderá ocorrer o casamento pois Norma pode não ter o entendimento da cerimônia. Devastado pela notícia, Rafael passa mal novamente e é levado ao hospital. Acorda sozinho, diferente da vez anterior que sofreu o enfarto e tinha Naty ao seu lado ao acordar. Saindo de lá, reconcilia-se com Naty – declarando seu amor por ela, comprometendo-se em cuidá-la e compartilhar uma vida em comum, mesmo com todos os problemas. O contrato da venda do restaurante da família é fechado, porém Rafael compra um outro para administrar, iniciando uma nova relação com seu trabalho. Diante da negação da igreja em realizar o casamento, Rafael arranja uma cerimônia falsa, realizada por seu amigo de infância Juan Carlos, que ator profissional, veste-se de padre. O casal de idosos aparece feliz na festa de casamento, reunidos com a família.

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A doença de Alzheimer, da qual Norma é portadora, é uma doença incurável até os dias de hoje, ocasionando uma neurodegeneração gradual, e consequentemente alterações comportamentais e progressivas perdas cognitivas (afetando a memória de curto prazo, linguagem, planejamento, regulação de humor, habilidades visuais-espaciais).

Importantes falhas de memória são os primeiros sinais observados pela família. No filme, por exemplo, percebemos que Norma não consegue guardar na memória o nome de sua neta, mesmo sendo apresentada a ela repetidas vezes, em curtos intervalos entre uma apresentação e outra. Porém a neurodegeneração característica do Alzheimer, não afeta somente a memória, pois espalha-se por todo o cérebro, afetando demais áreas.

A doença espalha-se nas demais regiões do lobo frontal, que são responsáveis pela autocensura e controle de sentimentos – por isso Norma, no filme, repreende seu filho publicamente, na frente de uma garçonete ao qual ele a chamou de “linda”, deixando-o constrangido. É comum que os familiares fiquem tristes ou irritados com tal mudança comportamental do paciente, porém tal mudança se dá em razão da doença. Compreender isso promove uma melhora na relação entre o portador da doença e seus familiares. No filme, Nino explica isso diante da irritação do filho pelo comportamento de Norma no restaurante.

A doença espalha-se também na região responsável em colocar significado aos estímulos que recebemos do ambiente através da percepção (nossos 5 sentidos) – sendo essa a razão pela qual o portador da doença pode apresentar alucinações (Shenk, 2010). Quando Norma repete várias vezes o termo “sujeira” no filme, durante a visita da neta no asilo, pode-se pensar que ela esteja alucinando.

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A doença então chega na região onde guardamos as memórias armazenadas a longa data (memória a longo prazo) – sendo por isso que o portador da doença esquece quem são seus familiares. Nesse momento, percebe-se que Norma ainda recorda-se do esposo Nino e do filho, porém eles mesmos sabem que um dia pode ocorrer de ela não mais lembrar-se deles.

A reabilitação neuropsicológica pode atuar nesses quadros onde há perda progressiva de funções cognitivas, com o objetivo não de cessar tais perdas (pois infelizmente, a doença de Alzheimer é incurável nos dias de hoje), mas de retardá-las o quanto possível, oferecendo uma melhor qualidade de vida ao portador. Avila e Miotto (2002) fizeram um apanhado dos últimos onze anos de artigos científicos que tratam sobre reabilitação da memória em casos de Doença de Alzheimer, e concluíram que a reabilitação neuropsicológica oferece maior qualidade de vida e traz bons resultados, principalmente quando usado medicamento anticolinesterásico em conjunto. Em um outro estudo (Avila, Carvalho, Bottino, Miotto, 2007) , percebeu-se que o atendimento em grupo ou individualizado de reabilitação neuropsicológica, auxiliou tanto na melhora dos sintomas psiquiátricos como na melhora das atividades do dia-a-dia.

Através da elaboração de um eficaz grupo de apoio, de estratégias que auxiliem o portador a enfrentar suas dificuldades do dia-a-dia, e de atividades neuropsicológicas que reabilitem ou estimulem as funções cognitivas que estão em risco, pode-se oferecer ao portador, um caminho de maior conforto e afeto. Assim, o neuropsicólogo que assume o paciente com Alzheimer, atua em duas vias: a aplicação de exercícios de reabilitação neuropsicológica, bem como no apoio psicológico do paciente e família/ cuidadores.

O objetivo de melhorar as funções cognitivas que a doença atinge, conta com o estudo de neurocientistas que supõe a persistência de neuroplasticidade em pacientes idosos e até mesmo os que apresentam Alzheimer (Avila, Miotto 2002). Para iniciar qualquer trabalho, há de se fazer primeiramente, uma criteriosa avaliação neuropsicológica e através dos resultados dessa, elaborar um protocolo de reabilitação eficaz e direcionado.

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O outro objetivo do profissional, é auxiliar o paciente e seus familiares a conviver com a doença, contornando as adversidades e superando-as (Avila e Miotto, 2002). O suporte emocional a família e ao paciente é de fundamental importância, para que as pessoas envolvidas planejem-se com a doença, conheçam-na, buscando informações e evitando ainda maior desgaste do que a doença já proporciona. No momento em que a doença é diagnosticada, a família geralmente desestrutura-se tanto pelas questões práticas (ex: quem irá cuidar?), financeiras (ex. como os bens dessa pessoa serão destinados? Quem irá arcar com os custos dos tratamentos e cuidados especiais?) bem como emocionais (ex. como lidar com doença e morte?). Na prática clínica, percebe-se que o paciente e seus familiares, passam por certas fases emocionais (Kubler-Ross, 1992), ocorrendo, em geral, o afastamento ou aproximação com paciente (ex. pode ser muito aversivo para o familiar presenciar o declínio cognitivo e distanciar-se de alguma forma do portador). No filme, Nino, o esposo de Norma, apresenta uma maior facilidade de lidar com tal frustração, aceitando e flexibilizando-se com as imposições da doença. Torna-se, dessa forma, um bom companheiro nesse momento difícil, visitando a esposa diariamente no asilo, expressando carinho e tentando oferecer a Norma maior felicidade. No filme, o sonho de casar-se com ela, não parece uma busca para alegrar exclusivamente a esposa, e sim a felicidade dela torna-se a sua também, tornando o casamento um sonho dele.

Por fim, pessoalmente, não há como negar que o filme emociona por apresentar uma linda união de 44 anos que supera toda a dor que gera uma doença impiedosa como o Alzheimer. É uma história que inspira e relembra os contos de fada que nossos pais nos contavam na infância porém com uma ressalva: pode não ser uma história perfeita (até mesmo, porque é real), mas é fiel ao que o poeta falava sobre amor: “[…] e que seja infinito enquanto dure”.

Contato: ellen@crescercomafeto.com.br

Referências:

Avila, R.; Miotto, E (2002). Reabilitação neuropsicológica de déficits de memória em pacientes com demência de Alzheimer. Revista Psiquiatria Clínica. 29 (4), 190-196.

Avila, R.; Carvalho, I; Bottino, C; Miotto, E (2007). Neuropsychological Rehabilitation in mild and moderate Alzheimer’s disease patients. Behavioral Neurology 18, 225-233.

Kubler-Ross, E (1992). Sobre a morte e o morrer. São Paulo: Martins Fontes.

Sociedade Brasileira de Neurologia. Doença de Alzheimer. Disponível em: http://www.cadastro.abneuro.org/site/publico_alzheimer.asp. Acessado em: 15 de Janeiro de 2015.

Shenk, D. (Director). What is Alzheimer’s disease (2015). Disponível em: http://www.aboutalz.org. Acessado em: 15 de Janeiro de 2015.

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