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Pais Presentes Pais Ausentes

Psic. Felipe Miranda Barbosa (CRP 08/19159)

No paradigma atual as famílias estão reconfigurando características históricas e ganhando novas e reformuladas estruturas. A família alterou parte de seu papel de formação nas crianças dando espaço para creches, cuidadoras(es), diaristas, babás e tantos outros que assumiram o papel de pai e mãe em nossa sociedade atual. Neste contexto, a Profa. Dra. Paula Inez Cunha Gomide no ano de 2004, publicou o livro Pais Presentes Pais Ausentes, onde descreve de forma clara e acessível todas as práticas parentais (positivas e negativas) que estudou durante sua formação, além de discussões atuais das famílias. As práticas parentais foram pesquisadas pela autora e implicadas em seu instrumento de avaliação psicológica, o IEP – Inventário de Estilos Parentais (Gomide, 2006). Em seus estudos, Gomide (2006) traz em seu livro as sete práticas educativas, sendo duas consideradas positivas (monitoria positiva e comportamento moral) e cinco negativas (abuso físico, disciplina relaxada, monitoria negativa, negligência e punição inconsistente).

Segundo a autora, as famílias hoje precisam voltar-se a formação de suas crianças, os valores morais que repassa à elas, seus padrões de conduta, sua função educativa dentro de casa e fora dela que serve como referencial para a criança, sempre pautado pelas mudanças que vem ocorrendo dentro de seu próprio núcleo familiar.

Sempre que se fala em papel da família, logo remete-se as regras, e nelas, surgem as dúvidas: Quais regras aplicar? Como aplica-las? Quais castigos aplicar? E se não dermos regras? Adianta ameaçar? Premia-se o bom comportamento? As regras devem existir, sua função é essencial, a quantidade de regras pode levar a saturação, o que faz com que a criança passe a ignorá-las ou burlá-las. Há ainda a função do choramingar, a forma de implementar regras e de castigar corretamente.

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Ao descumprir uma regra que os pais e/ou figuras de autoridade estabeleceram, ensinam-se três atitudes indesejáveis: 1) Que as regras não são para serem cumpridas; 2) Que a autoridade pode ser desrespeitada; 3) A Manipulação Emocional – Pais e/ou figuras de autoridade as vezes criam regras que não cumprem, os filhos consequentemente aprendem a desrespeitar toda e qualquer autoridade e ao perderem o controle, os responsáveis voltam-se para a ameaça como prática educativa, não tendo conhecimento que a ameaça só funciona se for seguida de um castigo prometido e acompanhado.

O castigo jamais deve privar a criança de suas necessidades básicas: alimentação, higiene, sono e carinho, além de que o pai e/ou responsável jamais deve demonstrar ódio ou raiva ao aplicar o castigo. O ódio e a raiva não demonstram que o comportamento da criança está errado, mas que ela como indivíduo é errada, já que pai e mãe são certos. A autora afirma ainda que o castigo não deve ser aplicado com um intervalo grande de tempo entre o ocorrido e a sua aplicação pois a criança pode esquecer o que fez entre o castigo e o ocorrido.

Para conhecer as dificuldades dos filhos, um ambiente familiar favorável é necessário; quando os filhos agem de forma agressiva, as mães tendem a recuar, e este recuo fortalece o comportamento agressivo do filho. Os pais devem evitar demonstrar medo ou insegurança frente a uma agressão de uma criança. O comportamento aprendido nesse confronto com os pais é facilmente generalizado para outras situações e ela passa a agredir verbalmente ou fisicamente todos ao seu redor.

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Ao ganhar um rótulo (mau elemento, marginal, delinquente, violento, etc.) a criança passa a se sentir desagradável nesses ambientes e procura se integrar em grupos ou gangues, que aprovam seus comportamentos violentos, assim como ousadia, coragem, inteligência e criatividade. A criança deixa de fazer parte do grupo familiar e passa a ser parte da “rua”.

Os pais devem ser criativos em sua forma de educar; sugerir trocas, atividades, e em alguns casos recompensas como por exemplo quando a criança comer todos os seus vegetais, ela poderá comer seu doce preferido de sobremesa. O modelo de comportamento dos pais é a principal fonte de novos comportamentos da criança, desde a forma de falar, vestir e comer. Pais e professores devem evitar que seus humores, mesmo que testados, sejam um fator decisivo na forma de aplicar regras, disciplinar a criança e dar exemplo. Quando um deles perde a razão diversas vezes com a criança e não consegue se controlar, é hora de buscar aconselhamento de um profissional e a terapia.

Uma das práticas parentais negativas é a Punição Física, ela é acompanhada de palavrões e xingamentos; juntos de um humor alterado, são ingredientes para que a criança se considere a errada e não seu comportamento. Filhos com baixa autoestima buscam as drogas, o crime, os grupos que a acolhem, que incentivam seus comportamentos disruptivos e os pais acreditam desconhecer a causa de tais comportamentos. A punição física cessa o comportamento naquele momento, mas ao se afastar do agente do ato, a criança repetirá o comportamento. Os pais podem culpar os parentes do companheiro, até seus ancestrais, por sua ineficácia em educar. A punição física pode ser substituída pela forma de segurar o filho ao fazer uma birra por exemplo, pela forma de falar com ele; o filho reconhece nos pais quando está encrencado.

A outra prática parental negativa é a Supervisão Estressante, a qual é expressa através da exagerada vigilância ou fiscalização dos pais em relação aos filhos e pela alta frequência de instruções repetitivas. Repetir várias vezes ao dia, todos os dias, por semanas, meses e até anos para por exemplo: “não ficar pensando na geladeira”, “não ficar tão perto da TV”, “Onde você estava?”, “Com quem você estava?”. A criança se cansa de ouvir a mesma coisa e passa a selecionar o que cumprir dentre as regras da casa. Os filhos entendem a desconfiança dos pais nelas, e quando os pais ou responsáveis partem para a agressão, sentem-se culpados e logo liberam os filhos dos catigos e/ou pedem desculpas pela agressão. O humor alterado nessas formas de cobrança torna a relação irritadiça e hostil, os filhos entendem que jamais serão compreendidos e os pais que jamais serão obedecidos.

As regras e formas de castigo e punição devem ser acordadas entre os pais e revistas a cada fase do desenvolvimento da criança, para evitar a confusão na criança e a escolha por um parente preferido por tratá-lo com libertinagem em casos de separação; ou seja, dar-lhe todas as liberdades para fazer o que quiserem quando o e como quiserem. Dizer à uma criança que ela só fez sua obrigação ao realizar um comportamento que nunca teve antes, como por exemplo, limpar o quarto, tomar o banho sem ninguém ordenar, são tarefas extraordinárias para ela e devem ser acolhidas pelos pais, assim como os pais foram extraordinários formulando novas regras que foram acompanhadas e cumpridas pelos filhos com excelência.

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Já uma das principais práticas parentais positivas é a Monitoria Positiva, na qual os pais são os principais mediadores da criança com o mundo, é através deles que ela aprende o que é certo e errado, como agir e reagir, como mudar o mundo. A Monitoria Positiva é demonstrar carinho, dar atenção, amor aos filhos, elogiar suas conquistas não importando sua dimensão e momento, é deixar de lado todas as dificuldades e ajudá-lo a fazer a tarefa, a perguntar como foi seu dia durante o jantar.

As broncas devem sempre ser feitas em particular com a criança, principalmente se ela tiver irmãos. As dificuldades do seu (pai ou responsável) dia-a-dia devem ser destinadas à outros adultos a distância da criança nas poucas horas em que passam reunidos em família. Sempre que houverem problemas com a criança, pode haver uma revisão dos valores morais da família, não uma “novela” nos ouvidos da criança. Comparecer à eventos da escola é fundamental, fazer parte da construção do dia-a-dia dos filhos, da educação deles e não constrangê-los em frente aos seus pares e sentirem-se sozinhos pelos pais não terem comparecido ao evento.

Outra prática parental importante é o Modelo Moral, o qual refere-se aos modelos de ética e crença que as crianças seguem dos pais. Quando não o possuem, as crianças utilizam-se de jogos, filmes, programas de TV, entre outros para moldar suas atitudes e crenças.

Uma prática parental negativa muito presente em nossa sociedade independente de classe social é a Negligência, ela é caracterizada pela desatenção, ausência, descaso, omissão ou falta de amor. É considerada o principal fator para o desencadeamento de comportamentos antissociais, e está muito associada à história de vida de usuários de álcool, drogas e adolescentes com comportamento infrator. A negligência está presente em pais que trabalham demais e não participam da vida dos filhos, que viajam com frequência, que chegam em casa cansados, aborrecidos e normalmente produzem mães depressivas, que vivem em seu próprio mundo, não dão atenção aos maridos e filhos, e quando elas trabalham tanto quanto os maridos, os filhos são criados por vizinhas, babás, parentes, sogras, etc. e os filhos crescem sem os pais saberem quem são e o que fazem.

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Crianças negligenciadas são frágeis, não receberam afeto suficiente, são apáticas ou agressivas, crescem acreditando que são más, em alguns casos podem sofrer cárcere privado por conta de seus pais e ficarem presas em suas próprias casas. Em casos extremos de negligência, é possível o surgimento da psicopatia, de serial killers (assassinos em série), entre outros tipos de perpetuadores de violência grave.

Com todos estes ingredientes instrutivos e uma leve e rápida leitura, o livro “Pais Presentes Pais Ausentes” é uma ótima indicação à todos, especialmente pais, responsáveis e professores.

Contato: felipe@crescercomafeto.com.br

Referências:

Gomide, P. I. C. (2004). Pais Presentes, Pais Ausentes – Regras e Limites. Petrópolis: Vozes.

Gomide, P. I. C. (2006). Inventário de Estilos Parentais (IEP). Petrópolis: Vozes.

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