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Para Sempre Alice

Psic. Dra. Ana Lucia Ivatiuk (CRP 08/7292-8)

A primeira vez que me deparei com o título “Para sempre Alice” (Still Alice, Glatzer e Westtmoreland, 2014) achei que se tratava de um filme sobre a Alice do País das Maravilhas. Mas aí cliquei no trailer e percebi que se tratava de outro contexto e de outra Alice. Minha motivação que já existia, aumentou. Além disso, apenas depois de assisti-lo soube que este rendeu o Oscar de melhor atriz para Julianne Moore. Bom ver que a academia de cinema premia não apenas os bons atores, mas também o quanto seus atores podem prestar um trabalho informativo à população através de seus papéis, pois este filme não trata apenas de uma história fictícia baseada no romance de Genova (2009), mas sim de uma doença que vem se tornando cada vez mais comum no nosso contexto atual: a doença de Alzheimer.

A história relatada refere-se à vida da Dra. Alice Howland (Julianne Moore), 50 anos, renomada professora de linguística. Em uma de suas palestras, ela esquece uma de suas palavras mais utilizadas no seu dia a dia. Este foi o primeiro sinal que a deixou intrigada. Na sequência, há cenas em que ela se perde no campus da instituição em que trabalha ao realizar o seu treino de corrida. O interessante dessas cenas não foi apenas a demonstração dos primeiros sintomas da doença em si, mas como isso foi retratado. No momento que há o esquecimento, a cena se demonstra a partir do olhar da atriz, mostrando a confusão que ocorre em seu cérebro para se localizar.

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A partir desses sinais, a Dra. Alice resolve procurar um médico especializado que começa a fazer o seu diagnóstico. Mas ela reluta em contar de imediato à família o que está acontecendo, principalmente ao seu marido John (Alec Baldwin). Porém, no meio desse processo, ela esquece um jantar com colegas de trabalho do marido e o mesmo fica furioso com ela. Neste momento, ela consegue relatar o que está acontecendo, mas ele, de imediato, faz o que a maior parte da população faz ao se deparar com um diagnóstico de saúde: nega a doença (Kubler-Ross, 2008). Após este período inicial, ele acompanha a esposa ao médico e aos testes e exames que ela faz até que se comprove o diagnóstico de Alzheimer. Por ser considerado precoce, há sugestão de que todos os seus filhos (no caso eles têm três) passem por testes para analisar a probabilidade de serem portadores da doença.

O casal convoca os filhos para uma reunião familiar para dar a notícia e fazer a proposta dos exames e, neste momento do filme, uma nova configuração de relação dos filhos com a família começa a ser retratada. A filha mais velha que até então se mostrava próxima dos pais, em especial da mãe, acaba demonstrando a revolta (Kubler-Ross, 2008), pois seu teste dá positivo para ser portadora da doença. Talvez sua revolta seja demonstrada porque está tentando engravidar. O filho do meio, que é estudante de medicina, tem seu resultado negativo, mas não fica claro ao longo do filme se isso é fator favorável ou não para a aceitação da doença da mãe. Já a filha mais nova, Lydia (Kristen Stewart), não faz o exame, porém é aquela que ao longo do filme passa a se aproximar da mãe e a cuidá-la. Antes disso, há indícios de que o relacionamento entre elas era muito ruim e distante.

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Dra. Alice tenta manter sua rotina, principalmente a profissional, mas sua produtividade e seus esquecimentos fazem com que os alunos passem a emitir uma série de reclamações sobre ela. Ao ser chamada pelo seu superior, ela se vê “obrigada” a confessar o que está acontecendo e assume seu diagnóstico. Talvez a pior fase para ela tenha sido essa: se ver obrigada a deixar de lado sua vida profissional e encontrar outras atividades que possa executar. Neste início de afastamento profissional, Alice deixa algumas coisas gravadas para consultar em momentos que a demência esteja bastante avançada. Uma dessas coisas refere-se a como provocar o seu suicídio se for necessário. Mais tarde, essa tentativa não dá certo, mas, com certeza, retrata a vontade de muitas pessoas ao saberem o prognóstico dessa doença. O mais interessante, tanto do vídeo como da tentativa em si, é que, aparentemente, sua família não percebe nem o seu ato e nem a sua vontade.

O marido, com a evolução da doença, passa a se distanciar da esposa. É ele quem a acompanha durante a maior parte do filme. Porém, passa de marido a cuidador até que deixa a mulher para seguir sua vida profissional. Neste momento, quem assume os cuidados com a mãe é a filha Lydia. Talvez possa parecer que isso foi muito egoísta e duro, mas ele assume para a filha que sente muito orgulho por ela conseguir abrir mão da sua vida pessoal (ela tentava a vida de atriz) para cuidar da mãe, o que ele não conseguiu.

O afeto permeia o filme, principalmente quando a Dra. Alice é convidada para fazer a palestra de abertura da Conferência Anual de Atendimento à Demência. Primeiramente, ela faz um discurso técnico, porém sua filha Lydia a convence durante a preparação a fazer um discurso mais pessoal. Ela comove a todos. Basta lermos um dos seus trechos para identificarmos o quanto ela estava vivendo toda a evolução do Alzheimer:

“Meus ontens estão desaparecendo e meus amanhãs são incertos. Então, para que eu vivo? Vivo para cada dia. Vivo o presente. Num amanhã próximo, esquecerei que estive aqui diante de vocês e que fiz este discurso. Mas o simples fato de que eu virei a esquecê-lo num amanhã qualquer, não significa que hoje eu não tenha vivido cada segundo dele. Esquecerei o hoje, mas isso não significa que o hoje não tem importância” (Genova, 2009, p. 350).

Impossível assistir a um filme desses e não observar que podemos estar nos mais variados papéis que o filme pode apresentar: profissionais de saúde que precisam entender sobre o problema e ajudar tanto ao paciente como a seus familiares a como lidar com esse duro e evolutivo prognóstico desfavorável; familiares que precisam estar atentos às limitações que essas pessoas podem passar a ter e quais as reais necessidades de acompanhamento podem ser, de fato, eficazes para cada portador da doença; a população, em geral, que pode estar tendo sintomas parecidos e que talvez não dê muita atenção aos sinais que seu organismo está emitindo sobre este problema.

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O filme nos ensina, sobretudo, a valorizar quem somos hoje e que o enfrentamento da doença pode fazer toda a diferença na evolução da mesma, mas ainda não consegue amenizar a sua evolução e o prejuízo que ela pode causar a todos os envolvidos. Na psicologia, podemos contar tanto com o apoio aos familiares para a melhor compreensão e enfrentamento da doença, como também com as intervenções que a neuropsicologia pode realizar com o próprio paciente, buscando uma melhora nas condições de vida diária do mesmo.

Lembre-se: independente do curso da doença, o importante é que a rede de apoio trate o portador de Alzheimer como um ser humano que pode não se lembrar quem ele é, mas que ele ainda é aquela pessoa!

Contato: ana@crescercomafeto.com.br

Referências:

Genova, L. (2009) Para sempre Alice: quando não há mais certezas possíveis, só o amor sabe o que é verdade. Rio de Janeiro: Nova Fronteira.

Kübler-Ross, E. (2008) Sobre a morte e o morrer. São Paulo: Martins Fontes.

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