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Uma reflexão sobre a saúde emocional da mulher na atualidade

Ms. Claudia Lúcia Menegatti (CRP-08/04989)

As relações de gênero permeiam todas as instâncias sociais e individuais, assim sendo, todas as relações humanas são influenciadas pelo gênero de seus participantes e suas representações dentro da cultura. O patriarcado, enquanto elemento fundante da história ocidental e compreendido como necessidade de dominação masculina, mantém-se presente, mesmo com todas as mudanças dos últimos séculos. Neste breve artigo pretende-se discutir a saúde emocional da mulher imersa na cultura androcêntrica, seus desafios e reflexões necessárias.

Ao longo do processo de desenvolvimento, os papéis de gênero são estabelecidos e passados desde a tenra infância. Às meninas é permitido chorar e se expressar emocionalmente, e, ao mesmo tempo, isso é visto como algo que diminui, reduz, fragiliza o feminino. Assim, o feminino é colocado desde cedo como frágil, vago, alterado; e o masculino como forte, objetivo, certeiro. Essas noções serão a base para a formulação de uma convivência social permeada por estereótipos, permissões, omissões e negações do feminino, onde a mulher perceberá desde sua infância quando pode (ou não) ter sua voz aceita e ouvida.

Observe-se que a socialização das mulheres envolve, desde a infância, uma contínua imposição de limites ao corpo. As roupas, modos, esportes e visão de fragilidade admitem o corpo feminino como o oposto à força masculina. Segundo Bourdieu (2003), a feminilidade é medida pela arte de se “fazer pequena”, colocando o corpo feminino dentro de um cerco invisível, feito pelo olhar de homens e mulheres continuamente. Esse é um corpo que tem dupla função: ser belo e desejável por um lado, e, por outro, fértil para a maternidade: o útero que dá conta de continuar vigorosamente a espécie.
Na atualidade, tornar-se mãe é uma das funções da mulher. Essa função é socialmente difundida como um direito, uma escolha. Mas há uma regra implícita de que, se houver essa escolha, terá de ser cumprida com excelência. Os ‘erros’ e dificuldades são inaceitáveis. Se, há cem anos atrás a mulher era reprimida para ser uma boa e abnegada esposa e dona-de-casa, hoje essa repressão tomou outro colorido com o mesmo fundo: é necessário ser uma mãe perfeita, que dê conta de seu filho com primor, que trabalhe fora, seja produtiva, especializada, com um corpo desejável e sexualmente ativa. Ou seja, nova roupagem para uma dominação androcêntrica que permeia as relações de gênero.

Compreendendo essa multiplicidade e complexidade de papéis assumidos pela mulher, algumas situações emocionais se apresentam como desafiadoras aos que trabalham em saúde mental. O risco de problemas de saúde mental para mulheres é de 1,54 em relação ao dos homens. As mulheres apresentam maiores taxas de prevalência de transtornos de ansiedade e do humor que homens, e os transtornos alimentares têm a proporção de 10 mulheres para 1 homem atingido. Por outro lado, o estresse decorrente do trabalho, antes privilégio masculino, hoje atinge igualmente homens e mulheres.
As hipóteses para essa situação são de ordem biológica e social. Dentre as biológicas, podemos citar as mudanças hormonais desde a menarca, gestação, parto e puerpério, e, mais tarde, a menopausa e as terapêuticas de reposição hormonal. Essas condições biológicas promovem variações de humor na mulher e são facilitadoras para alterações emocionais como ansiedade e depressão. No entanto, argumenta-se que há maior persistência dos episódios depressivos em mulheres que em homens também por influência de pressões sociais, estresse crônico e baixo nível de satisfação associados ao desempenho de papéis tradicionalmente femininos. Vale comentar também que a violência contra a mulher aparece associada na literatura da área com aumento de episódios depressivos e ansiosos, assim como o estresse pós-traumático.

Nesse contexto cultural se impõe ao profissional de saúde mental a discussão sobre autoconceito e autoestima da mulher. Atuar na saúde emocional da mulher requer o questionamento sobre os valores e regras culturais que estão permeando suas preocupações, ansiedades, angústias, pressões e dificuldades. Afinal, ser mulher é muito mais do que a oposição ao modelo androcêntrico, mas uma construção de valores próprios e decisões sobre o que deseja realmente tornar-se: mulher mãe, mulher profissional, mulher sexual, mulher que escolhe o que quer e que pode mudar ao longo da vida. É necessário haver lugar para o questionamento da ordem das coisas e dos modelos já estabelecidos. Qual é, afinal, o valor que cada mulher atribui a si mesma?

Contato: claudia@crescercomafeto.com.br

Referências

Andrade, L. H. S. G. de; Viana, M. C., & Silveira, C. M.. (2006). Epidemiologia dos transtornos psiquiátricos na mulher. Revista de Psiquiatria Clínica, 33(2), 43-54.

Badinter, E.( 2011) O conflito: a mulher e a mãe. São Paulo : Record.

Borsa, J. C.; Feil, C. F. O papel da Mulher no contexto familiar: uma breve reflexão.www.psicologia.com.pt

Bourdieu, P. (2003) A Dominação Masculina. Rio de Janeiro : Bertrand-Brasil, 3.ed.

Fonseca, R.M.G.S.(1997) Espaço e gênero na compreensão do processo saúde-doença da mulher brasileira. Rev Latino-am Enfermagem, 5(1):5-13.

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